
modelo de ressocialização de presos criado por dona Maria se transformou no Patronato Lima Drummond.
Pessoas como a Dona Maria fazem a diferença neste planeta tão conturbado.
Precisamos de um espelho para nos refletirmos, então, nada melhor do que SERES iguais a ela para servir como espelhos para nós.
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Por olhos clarinhos por causa do tempo, passam tantas lembranças, tanta
coragem, tanta solidariedade. Por caminhos protegidos por árvores,
passam tantos homens, tantas histórias, tanta superação.
Histórias de gente que pouca gente quer por perto, mas que em um
casarão encontraram alguém que deu a mão, porque não acreditava que eles
eram irrecuperáveis. Acreditava sim, na bondade deles.
Nem todo mundo abre as portas de casa para receber desconhecidos. Ainda
mais quando esses desconhecidos foram condenados porque cometeram algum
tipo de crime. Parece impossível, mas acredite: foi o que uma mulher
fez sozinha em 1941. Uma atitude corajosa e fora dos padrões para a
época. Esse ato de generosidade ajudou a recuperar milhares de homens.
O nome dela é Maria Ribeiro da Silva Tavares. Idade: 102 anos. Uma
mulher adiante do seu tempo. A dona Maria foi a primeira mulher a entrar
em uma penitenciária no Rio Grande do Sul para ajudar.
Viúva, com 24 anos e dois filhos para criar, conseguiu convencer as
autoridades. Tirou 36 detentos do regime semiaberto. Levou para casa e
ajudou cada um a encontrar trabalho.
Globo Repórter: Nunca teve medo?
Maria Tavares: Não. Medo de quê? Todos são bons.
Dona Maria sempre escolheu os presos mais perigosos e tirou deles,
homens marginalizados, o que tinham de melhor. É o caso de um homem que
não quis se identificar.
Ele era um criminoso de alta periculosidade, passou quatro anos em
regime fechado e foi para o semiaberto. Fugiu duas vezes. Mas um dia
recebeu um convite de dona Maria Tavares para irem juntos a uma missa.
“Ela falou que a pessoa, por mais ruim que seja, tem algo de bom dentro
dela. Falando uma palavra assim, bonita, acho que dá uma linha para
pessoa já pescar e já começar a fazer as coisas direito, caminhar pelo
caminho mais correto”, avalia o homem.
Era o início de uma nova vida. O homem considerado perigoso tirou
documentos, arranjou emprego e reencontrou a família de oito filhos.
Globo Repórter: Foi ela que localizou, que ajudou a localizar todos os seus filhos?
Homem: Sim, foi a dona Maria.
Globo Repórter: O que você sente por ela?
Homem: A dona Maria... O que dá pra dizer? Acho que dá pra dizer que eh
a segunda mãe, com certeza. Não se começa nada sozinho. Com todo esse
apoio da dona Maria eu aprendi a ser generoso comigo mesmo.
O modelo de ressocialização de presos criado por dona Maria se
transformou no Patronato Lima Drummond. Parece ser uma casa comum, com
um enorme pátio. As grades no corredor que dá acesso aos quartos nem
parecem que estão lá por questões de segurança.
O albergue tem os menores índices de fugas, quando comparado a outras
casas prisionais. Hoje são os funcionários da superintendência de
serviços penitenciários que cuidam dos 76 presos.
“Aqui a gente entra dentro do Patronato e, com a presença física da
dona Maria, nós já temos um olhar diferente para com o preso. Nosso
trabalho aqui, no momento em que recebemos ele, sem se preocupar com o
que ele fez lá fora, tratamos ele como cidadão, orientando,
encaminhando para trabalho. É uma vida aqui para fora. Aí ele é
cobrado”, conta Sirlei Hahn, diretora da Fundação Patronato Lima
Drummond.
Muitos ex-detentos nunca mais se desligaram do patronato e da dona Maria. Sempre voltam, como quem visita a família.
Sérgio Scola, detento em regime aberto: Marcou a minha vida. A gente
não vê as pessoas fazerem isso. A história de ela ser a primeira
assistente social a entrar num presídio naquela época, trazer os presos
para dentro da casa dela! A gente fica pensando isso tem que ser alguma
coisa dada por Deus para ter essa iniciativa que nem a da dona Maria.
Globo Repórter: Não parece verdade, não é?
Sérgio Scola: É, não parece verdade. É muito bom assim. O patronato
marcou muito a minha vida, porque, quando sai de lá assim, sai meio
assustado, não sabe como você vai encarar o mundo, porque lá é um outro
mundo.
E assim segue a vida no casarão que mais do que um símbolo do tempo de
abundância é um símbolo de amor e generosidade ao outro. Hoje em dia,
dona Maria não tem mais dinheiro e espera restauração desse patrimônio
espiritual.
Os olhos de dona Maria continuam a observar tudo por lá. Ela mora em
uma casinha azul construída dentro do albergue e, mesmo com a saúde
frágil, de cadeira de rodas, ainda participa da vida da instituição.
Roberto Sotello, ex-presidário há 14 anos, é o cuidador de dona Maria.
Globo Repórter: A senhora fez o que queria na vida?
Dona Maria: Mais ou menos.
Globo Repórter: O que faltou?
Dona Maria: Terminar aqueles que eu não pude ajudar.
Globo Repórter: Do que a senhora gosta?
Dona Maria: De ver o bem. Aqueles que estiveram mal e agora fazem o bem.
Roberto Sotello: É fácil se emocionar com a senhora?
Dona Maria: Por quê?
Roberto Sotello: Tanta coisa boa que a senhora faz para gente...
Dona Maria: O que eu fiz?
Roberto Sotello: O que a senhora fez? A senhora recuperou muita gente.
Dona Maria: Tem muitos que eu falhei.
Roberto Sotello: Não falhou, não. A senhora está sendo modesta, a senhora está ajudando ainda.
Percorrendo os caminhos do albergue, é possível ver as paredes de uma
pequena capelinha. Diz a lenda que dona Maria só pretende partir depois
que ela estiver pronta. E todos torcem por lá para que esta obra nunca
termine.